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terça-feira, maio 17, 2022
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REVISTA CRUSOÉ!!! PELA PRIMEIRA VEZ UM PARLAMENTAR DE GOIÁS É O ENTREVISTADO NACIONAL. RARA FIDELIDADE A TUDO QUE RESPONDI!!!

Milhões de reais para não bater em Bolsonaro

No início deste ano, o senador Jorge Kajuru decidiu adotar, na política, um expediente que costumava usar como apresentador de programas de rádio e televisão: gravar suas conversas. O “alvo” mais notório do gravador de Kajuru foi o presidente Jair Bolsonaro. Em abril, o parlamentar que fez fama como jornalista esportivo divulgou um áudio com trechos de um telefonema no qual Bolsonaro atacava senadores, em razão da CPI da Covid. O episódio marcou o rompimento do senador goiano com o presidente e provocou um efeito colateral: desde então, colegas dele no Senado evitam contatos telefônicos com Kajuru, temendo a “exposição” indesejada.

Nesta entrevista a Crusoé, o senador, do Podemos, explica os motivos que o fizeram elevar ainda mais o tom das críticas ao presidente e a seu governo. Ele afirma que Bolsonaro “está copiando” o ex-presidente Lula nas práticas populistas, tem “compulsão por mentiras” e deve ser responsabilizado pelo esquema de compra de apoio político no Congresso, por meio das emendas do orçamento paralelo.

Conhecido por não ter travas na língua, Jorge Kajuru afirma ter sido alvo de uma abordagem indecorosa do líder do governo no Congresso, o senador Eduardo Gomes, do MDB do Tocantins: “Meu assessor de orçamento ouviu da boca do senador Eduardo Gomes (líder do governo no Congresso), de quem eu gosto, e que é muito educado, o seguinte: ‘O Kajuru podia ter 100 milhões (de reais) em emendas. Fala para o Kajuru mudar, não bater no governo desse jeito’”. Eis a entrevista.

O sr. anunciou rompimento com o presidente Jair Bolsonaro em abril deste ano, depois de divulgar o áudio de uma conversa na qual ele criticava o Senado por causa da abertura da CPI da Covid. Por que demorou tanto para tomar essa decisão?
Sempre fiz críticas duras que mostram de forma irretocável a minha independência em relação ao governo Bolsonaro. Desde o primeiro ano de governo, eu tenho mantido uma posição de distância cética de todos os poderes, que aprendi com o jornalista imortal Paulo Francis. A única vez em que estive no Palácio foi para agradecer a sanção de um projeto meu de prevenção do diabetes, com apenas quatro meses de mandato. A partir daí, mantive com Bolsonaro uma relação republicana, conversas por telefone relacionadas a assuntos em discussão no Senado, nada mais do que isso. Quando chegou o dia da posse do Rodrigo Pacheco na presidência do Senado, em 1º de fevereiro, fiz um pronunciamento na tribuna dizendo que, a partir dali, gravaria todas as minhas conversas com políticos, porque estava decepcionado com quem falava comigo de uma forma ao telefone e, dois dias depois, a conversa era totalmente diferente. Portanto, naquele dia que eu liguei para o presidente, para dizer que ele estava cometendo uma injustiça comigo e com outros senadores, colocando todo mundo no mesmo balaio, porque todos queriam uma CPI contra ele, o presidente sabia que eu estava gravando. E eu avisei a ele no dia seguinte que colocaria a gravação no ar. Ele disse para eu colocar do jeito que eu quisesse. Achei até que errei ao tratá-lo daquela forma, com muita educação e respeito, querendo acalmá-lo, porque depois ele disse publicamente que eu menti.

Foi a reação do presidente à divulgação do áudio que levou ao rompimento?
Não foi um rompimento, foi um distanciamento, porque antes eu ainda falava com ele por telefone. Depois desse episódio, nunca mais falei com ele. Não tenho nada para falar com ele. Não sou oposição por oposição, do quanto pior melhor. Quero que ele melhore o governo, que está um desastre. Mas como conversar com quem age assim e coloca o time de fanáticos, o chamado gado, contra você, te execrando nas redes sociais? Nunca pedi nada a ele, nenhum cargo, e na minha eleição em Goiás, ele gravou um vídeo de apoio ao meu adversário. Portanto, eu não sou daqueles que foram eleitos graças ao Bolsonaro.

O presidente Bolsonaro é desses políticos que falam uma coisa ao telefone e depois fazem outra?
Sim. O apelido dele não é mito, é mitômano. Ele tem compulsão por mentira.

Que mentiras ele contou para o sr.?
Ele contou para o público em geral, não foi com exclusividade para mim. Você deve se lembrar, por exemplo, de que na campanha ele afirmou ser contra a reeleição. Daí ele começa o governo já praticando uma campanha eleitoral, com propaganda extemporânea. Não entendo a Justiça Eleitoral não agir diante do que ele faz, gastando dinheiro do contribuinte para fazer campanha. Isso é desleal com os adversários. Ele está anunciando agora um gasto de 420 milhões de reais com publicidade no ano que vem. Isso, para mim, é um crime. É para mostrar um governo que não é real. O presidente tem se posicionado de forma surpreendente no que tange ao combate à corrupção, dizendo que tomará providências com qualquer corrupção que ele souber. Isso é mais uma promessa. Vamos ver agora com o relatório final da CPI, que indicia 70 pessoas, o que ele vai fazer. Cai por terra a declaração de que no governo dele não roubaria e não deixaria roubar. Ele vai ver no relatório o tanto de gente lá do lado dele que roubou.

Dos nove crimes imputados pela CPI ao presidente Jair Bolsonaro, quais o sr. considera mais graves?
Dois são os mais graves, por razões óbvias. O crime de responsabilidade, porque, em tese, coloca em risco o mandato dele, e o crime contra a humanidade, cuja tipificação permite eventual julgamento pelo Tribunal Penal Internacional, em Haia. No primeiro caso, ele pode perder os direitos políticos. No segundo, há o rigor da pena de prisão, que pode chegar a 30 anos. Agora, além do aspecto jurídico, existe o lado político. Será que o presidente da Câmara (Arthur Lira) vai analisar o crime de responsabilidade? Dificilmente. Isso não impede que um grupo de juristas encaminhe um pedido de impeachment com base no relatório da CPI, com uma pressão de parte considerável da população. A meu ver, os prognósticos são difíceis neste momento. Vamos aguardar a votação do relatório na próxima terça-feira e ver como as instituições encarregadas dos fatos demonstrados pela CPI vão se comportar. Isso vai depender, sobretudo, do impacto que o relatório provocará na sociedade e como os agentes políticos vão reagir.

O presidente entregou o coração do governo ao Centrão e tem usado o orçamento paralelo para comprar apoio político no Congresso. Ele já descumpriu a promessa de combater a corrupção?
Completamente. O orçamento paralelo é o que de mais triste ocorreu no governo Bolsonaro. Ao pé da letra, ele significa corrupção, e brava. São bilhões gastos, compra de votos, compra de emendas, e Bolsonaro não tem como falar que não sabia. Ele tem que ser responsabilizado por isso. O presidente entregou a chave do cofre para o Centrão, colocando na Casa Civil um homem como Ciro Nogueira, que representa negócio, tanto que já disse que é um homem do povo e que, se amanhã tiver que ficar ao lado do Lula, ele fica. Olha o que o Bolsonaro aceita do lado dele. O presidente tem feito acordo de cargos com Valdemar Costa Neto, meu Deus do céu! Como Gandhi dizia, pássaros e porcos não se sentam à mesma mesa. Agora, na visão do presidente Bolsonaro, se sentam, sim. O duro é achar onde está o pássaro.

Tentaram comprar o seu apoio com emendas do orçamento paralelo?
De que jeito? Primeiro que eles já têm medo de serem gravados. A maioria prefere conversar comigo pessoalmente no plenário. Não nasceu homem neste mundo que teve a coragem de querer me comprar. Agora, eu te digo que o meu assessor de orçamento ouviu da boca do senador Eduardo Gomes (líder do governo no Congresso), de quem eu gosto, e que é muito educado, o seguinte: “O Kajuru podia ter 100 milhões (de reais) em emendas. Fala para o Kajuru mudar, não bater no governo desse jeito”. Quando o assessor me contou isso, eu fui falar com o senador: “Vou fingir que você não falou isso porque, se tivesse falado comigo, eu teria gravado e colocado no ar”. Eu tenho as verbas oficiais, legais, que somam 27 milhões. Passou disso, é preciso dar satisfação à sociedade. Como é que tem senador que conseguiu 150 milhões para o Rio Grande do Sul, como o (Luis Carlos) Heinze? Como tem senador que conseguiu 200 milhões para o Amapá, como o Davi (Alcolumbre)? Isso tudo tinha que ser absolutamente esclarecido. Isso tudo o presidente sabe. Aí está a responsabilidade dele, grave, de ter comandado tudo. Não tem desculpa.

Pedro França/Agência Senado

O sr. vê diferença entre as práticas políticas de Bolsonaro e as do ex-presidente Lula?
Eles são parecidíssimos no populismo. O Bolsonaro está copiando o Lula em várias ações. Até na questão da corrupção eles se assemelham, dizendo que não sabem. Os dois são tão parecidos que 40% da população não votariam em nenhum dos dois e esperam na terceira via uma nova opção.

A história mostra que o populismo seduz muito o eleitor brasileiro. Há alguma chance de uma candidatura sem a marca populista conseguir romper a polarização entre Bolsonaro e Lula?
Quero crer que sim. Para mim é fundamental que, até março, a gente tenha um candidato da terceira via com seus 20% de votos. Porque se continuar parado em 10%, como o Ciro Gomes, o (José Luiz) Datena e os outros, que não chegam a 10%, fica difícil. Vamos aguardar o que sai dessa fusão do DEM com o PSL. Hoje, vejo duas boas duplas: Ciro e Datena, e (Luiz Henrique) Mandetta e (Rodrigo) Pacheco. É preciso chegar até março com 20%, para mostrar para a sociedade que há uma chance enorme de um dos dois, Lula ou Bolsonaro, não ir para o segundo turno. E se isso acontecer, não há nenhuma dúvida que o Brasil terá um presidente da terceira via, ou de uma nova opção, como quiser chamar.

O comportamento de Bolsonaro, especialmente na pandemia, levou juristas e políticos a questionarem a sanidade mental do presidente. Pelo convívio com ele, o sr. acredita que o presidente tenha algum tipo de transtorno de personalidade?
Não tenho nenhuma dúvida. Presenciei momentos de psicopatia, de desequilíbrio. Quando ele começa a xingar muito um adversário político, ele saía da linha normal de raciocínio, sem o equilíbrio de quem sabe discordar. A discordância dele é sempre com um adjetivo que você não pode esperar de um presidente da República, pela liturgia do cargo. Não tem cabimento um presidente ir para aquele cercadinho ridículo e falar as coisas que ele fala. Fico cada dia mais estupefato.

Um dos alvos mais recentes dos ataques de Bolsonaro é o ministro Alexandre de Moraes, do STF, de quem o sr. pediu impeachment após a prisão do deputado Daniel Silveira. Quem mais contribuiu para essa crise institucional entre os poderes?
Eu vejo como uma agressão a toda a democracia. É ruim para o Judiciário e péssimo para o presidente. Tanto que ele (Bolsonaro)ficou desesperado nesse período todo e chegou a fazer as pazes, conversando com Alexandre de Moraes, com o ministro (Luiz) Fux. Quando viu que estava totalmente perdido nessa briga, ele mudou. Não xingou mais nenhum ministro. Quem mais foi prejudicado foi o presidente Bolsonaro, tanto que hoje ele não fala mais nem A nem Z sobre o comportamento do Judiciário brasileiro. Foi ruim para todos e culminou com momentos lamentáveis que a gente não tinha visto em nenhum dos ex-presidentes da República.

Muitos dos que foram às manifestações do Sete de Setembro protestavam especificamente contra ministros do Supremo. Qual é o peso das decisões da corte nesse processo de tensão?
Ajudou a aumentar a revolta, a indignação da nação brasileira em relação ao Supremo Tribunal Federal. Esse ódio a alguns ministros do Supremo, em especial, não foi comandado pelo Bolsonaro, ele foi espontaneamente mostrado pela população brasileira, que lá atrás já batia na tecla do impeachment de alguns ministros, como Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski. Tanto que, no começo do mandato, em 2019, eu fui autor de pedidos de impeachment no STF e o Bolsonaro foi contra os meus pedidos, colocando toda a turma dele no Senado para não assinar o meu pedido. A CPI da Toga saiu aos 44 do segundo tempo, apenas com as 27 assinaturas mínimas necessárias, porque o governo jogou pesado para que os senadores não assinassem o pedido de investigação do Judiciário, que tinha como principal elo, evidentemente, o Supremo. Ele só foi mudar de opinião, principalmente, por medo de o Supremo chegar na família dele em função das denúncias que existem. Com medo do Supremo, ele partiu para o ataque. Quando ele viu que o Supremo não pipocou e o ameaçou nas ações que existem lá, ele recuou e cedeu como cachorrinho.

Por que a CPI da Toga não saiu do papel? 
Exclusivamente porque o ex-presidente do Senado Davi Alcolumbre não quis e engavetou. Agora temos de começar de novo com o Rodrigo Pacheco na presidência. Com uma diferença. O Pacheco concorda, por exemplo, que o tempo de mandato dos ministros do Supremo tem de ser reduzido para doze anos. Ele concorda com minha emenda para idade mínima de 55 anos para ser ministro do STF. Portanto, tem algumas opiniões que nenhum presidente do Senado tinha manifestado. O Pacheco foi muito claro quando recebeu o meu pedido de impeachment do Alexandre de Moraes, com dois senadores como testemunha, e disse que o Supremo não poderia ser a última instância. Não poderia ser ele o dono da última decisão. Esperamos que, passando a CPI da Covid, a gente consiga colher as assinaturas e entregar um novo pedido ao presidente do Senado. Eu não desisti da CPI do Judiciário.

Por que os senadores têm tanto medo de se indispor com o Judiciário?
Todo mundo sabe dos absurdos revoltantes, desde as mordomias e os privilégios às sentenças duvidosas e aos julgamentos inesperados. Quem não assina é porque tem algum medo. É igual à PEC da Vingança, que queria acabar com autonomia do Ministério Público. Quem apoia isso é porque tem medo, tem algum problema na Justiça.

Agência Senado

O país está fadado ao retrocesso no combate à impunidade?
Lamentavelmente, sim. Não consigo ver uma luz no fim do túnel. Vou lutar da minha forma e deixar a minha digital, para não ter vergonha quando sair da vida pública. Conversando com alguns colegas eu vejo a depressão, um pessimismo muito grande.

O sr. já disse que vai votar contra a indicação de André Mendonça, o ministro “terrivelmente evangélico“, para o Supremo, mas cobrou na Justiça a realização da sabatina no Senado. Qual é, afinal, o jogo político por trás desse impasse?
Eu sou contra o nome do André Mendonça porque quando foi ministro da Justiça ele perseguiu a nossa classe de jornalistas. Na AGU, ele virou um advogado do presidente Bolsonaro. Portanto é um amigo do rei. E o presidente, de forma infeliz, o chama de “terrivelmente evangélico”. Crença não define o meu voto. Ouvi vários juristas, associação de juízes, e a maioria é contra a indicação dele. No Senado, pelo menos até 15 dias atrás, eu tinha convicção de que ele perderia. Bolsonaro seria derrotado. Agora, por outro lado, não posso concordar em não fazer a sabatina e não deixar que o voto defina quem será ou não ministro do Supremo. A convocação dele para a sabatina já passou do período regimental. Virou uma posição absolutamente monocrática do presidente da CCJ, Davi Alcolumbre. E eu respondo para você o porquê: Alcolumbre quer Augusto Aras no Supremo. É o desejo dele. Como Bolsonaro não mostrou preferência pelo Aras, o argumento do Davi é que a gente não pode deixar o presidente mandar no Senado. Diz que tem de esperar a hora certa, e a hora certa não chega porque, seguramente, ele está vendo que não tem votos para derrotar o presidente. A causa disso é alguma coisa que aconteceu entre ele e o Bolsonaro, que eu não sei o que é. Na minha opinião, ele não vai fazer a sabatina neste ano.

O sr. tem chamado Augusto de Aras de engavetador-geral da República porque ele tem arquivado pedidos de investigação contra o presidente. A conduta do PGR contribuiu para a descrença no funcionamento das instituições?
Na sabatina de Augusto Aras no Senado, eu disse a ele, olho no olho, de forma respeitosa, que não votaria pela recondução dele. Sou contra a reeleição. Ele também foi educado e me disse que concordava que a reeleição faz mal na maioria das vezes, mas que sairia do mandato deixando um legado de respeito à Constituição. O apelido de engavetador-geral que foi dado ao ex-procurador-geral Geraldo Brindeiro, no governo FHC, cabe a ele (Aras),em função da quantidade de processos que ele prometeu levar adiante e não levou. A PGR existe para investigar o que ela recebe, dar uma satisfação à sociedade, ao Parlamento. Agora, o relatório da CPI da Covid vai ser o xeque-mate para a história de Aras na PGR. Ele vai receber denúncias graves, com fartura de nomes indiciados, e não vai ter como canetar tudo e arquivar tudo como o deputado Ricardo Barros, líder do governo Bolsonaro na Câmara, afirmou que irá acontecer, ironizando o relator Renan Calheiros. Depois, Aras deveria vir a público e dar uma declaração ao país, para dizer que tomará providência quanto a tudo o que receber de material farto sobre corrupção durante a pandemia, seja contra quem for. Se ele não mostrar independência, a história dele será manchada de forma definitiva.

Dos três grupos que disputam espaço no governo, os militares, a chamada ala ideológica e o Centrão, qual é o mais nocivo para o país?
Não há nada mais danoso que o Centrão. O Centrão é guloso. Já chegou querendo a Casa da Moeda. Hoje, quando se fala nos bastidores que o ministro da Economia, Paulo Guedes, pode pedir demissão, a gente sabe que o Centrão sorrateiramente já prepara alguém para assumir o ministério. É lamentável que um governo que se dizia independente, que prometeu não interferir na Polícia Federal, na Operação Lava Jato, esteja fazendo isso. A PEC da Vingança, por exemplo, tinha o apoio total do Bolsonaro, juntamente com o PT. Ambos querem um Ministério Público sem autonomia, morto, isso para mim é uma barbaridade. E o Centrão, nesse tripé, é o que há de pior. Não consigo acreditar como Valdemar Costa Neto voltou no governo Bolsonaro. A gente imaginava que ele pudesse voltar num governo Lula, que a gente sabe que negocia com todo mundo, mas, no governo Bolsonaro, a gente tinha algum otimismo de que ele fosse manter distância dessa classe do meio político. Imagine deixar o Roberto Jefferson falar pelo seu governo, um cara que estava politicamente morto. Isso tudo é interferência do Centrão. Não tem mal maior.

As práticas que o sr. vê hoje no Congresso são exatamente como as que o sr. imaginava antes de assumir o mandato?
Eu constatei tudo aquilo que eu já acompanhava nesses 40 anos como jornalista. O que me causa revolta e que me levou começar a gravar todas as conversas com políticos é que eu achei que a palavra fosse algo mais forte na política. A única novidade mesmo é não querer mais isso aqui. Quando terminar meu mandato em janeiro de 2027, eu saio imediatamente. Só não renuncio porque pareceria covardia e traição a quem votou em mim.

Há uma visão muito presente na sociedade que os parlamentares levam uma vida cheia de mordomias, trabalham pouco e ganham muito, inclusive retendo parte do salário de assessores, como o Ministério Público diz que ocorria no antigo gabinete do senador Flávio Bolsonaro. Essa é a realidade?
Só posso falar do que eu sei. O que eu ouço de vários deputados e vários senadores é que isso não é uma exclusividade do clã Bolsonaro, isso acontece em outros gabinetes. Eu fico tranquilo porque não gasto um centavo dos privilégios. Eu recusei todos os privilégios desde a minha campanha a senador.

Mas qual é a regra no Congresso?
A regra não é essa. Tem parlamentar que tem 60 assessores, que, na verdade, são cabos eleitorais. Tem parlamentar que gasta com consultoria disso, consultoria daquilo. Consultoria é uma mentira. É uma forma de ganhar mais 20 mil reais por mês. Só precisa de alguém para emitir uma nota para você, você paga um porcentual para essa pessoa e o resto fica com você. Isso acontece e eu tenho os nomes das pessoas que fazem isso, me falta prova. Estou buscando essas provas, e vou conseguir, para denunciar. O Senado já tem uma excelente consultoria, não precisa o parlamentar contratar. Isso tem que acabar. A classe política só vai ser respeitada quando decidir cortar na própria carne.

É possível enriquecer licitamente com a política?
De forma alguma. Concordo plenamente com o que a Heloisa Helena disse uma vez na tribuna do Senado: o político que sai de seu mandato e fica rico é ladrão. Eu concordo com ela. O salário que se ganha como político não leva ninguém a ficar milionário. Se você ficou milionário na política, é porque roubou dinheiro público.

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