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domingo, maio 22, 2022
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QUANDO CRIEI O PROJETO OUVI CENTENAS DE GOIANAS!

Pobreza menstrual atinge 130 mil mulheres em Goiás

Mulheres recorrem até ao uso de esponjas para conter sangramento. Assunto ainda é visto como tabu. Em Goiás, movimentos se organizam para recolher doações

Papéis sujos, jornais, esponjas, panos e até mesmo miolo de pão. Estas são algumas das estratégias que cerca de 130 mil goianas, segundo o governo estadual, e mais de 4 milhões de meninas brasileiras, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que não têm acesso a absorventes adotam para enfrentar o período menstrual. Em todo o País, a pobreza menstrual ainda é um fator que limita muitas mulheres de trabalharem, praticarem esportes e irem para a escolas.

Pensando nisto, a Câmara dos Deputados enviou o projeto de lei que previa a distribuição gratuita de absorventes para mulheres vulnerabilizadas de todo o País. Entretanto, ele foi vetado pelo presidente Jair Bolsonaro. A justificativa dele foi falta de fonte de custeio para bancar a medida. A decisão do presidente provocou diversos movimentos e ações em prol da dignidade menstrual e desmistificação do tema, inclusive em Goiás (veja quadro).

A ginecologista e obstetra Maria Elaine Oliveira, que atua no Hospital Materno Infantil (HMI), conta que já recebeu uma paciente jovem, que para não perder uma prova que tinha na escola, acabou colocando uma esponja dentro da vagina para fazer uma espécie de tampão. “A esponja acabou aderindo a mucosa e foi necessário que ela passasse por dois procedimentos cirúrgicos para fazer a retirada completa. O uso dessas alternativas para conter o fluxo pode gerar diversas inflamações e infecções”, explica.

A médica alerta que situações como essa ilustram o fato de que a pobreza menstrual é um problema de saúde pública, que só pode ser resolvido por meio de políticas públicas eficientes. “Como uma menina menstruada e sem absorvente vai para escola? Ela vai perder uma semana de aula? Uma mulher que precisa escolher, vai comprar comida ou um pacote de absorventes?”, questiona.

Maria Elaine destaca ainda que é necessário repassar orientações sobre higiene íntima e cuidado menstrual para essas mulheres. “Existe uma carência grande neste sentido. Precisamos trabalhar a conscientização, principalmente nas escolas, para que a menstruação deixe de ser um tabu. Menstruar é normal. Faz parte do sistema fisiológico da mulher”, destaca.

A coordenadora da Central Única das Favelas (Cufa) de Aparecida de Goiânia, Ana Carla da Silva, diz que recebe diariamente relatos de mulheres que deixam de exercer diversas atividades por conta do ciclo menstrual. “Hoje mesmo (ontem) uma mulher me ligou e disse que não poderia participar de uma reunião porque estava menstruada. A falta de dignidade menstrual impede as mulheres de saírem de casa”, explica. Ana Carla destaca que as Mulheres da Cufa Goiás têm como principal intuito desmistificar a menstruação. “Nós fazemos rodas de conversa com elas e explicamos que isso não é motivo de vergonha”, pontua.

Ações

A coordenadora conta ainda que periodicamente a instituição faz ações que contam com a distribuição de absorventes para mulheres que moram na periferia de Aparecida. A partir de agora, a intenção da Cufa de Aparecida de Goiânia é que essa entrega aconteça, pelo menos, uma vez na semana. “Nós lançamos a campanha ‘De Menina a Mulher’ e contamos com o apoio forte do coletivo Nós por Elas. A primeira entrega foi feita nesta segunda-feira (11).”

Há cerca de quatro meses a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Políticas Afirmativas (SMDHPA) faz um trabalho em parceria com uma empresa de coletores menstruais, que doou cerca de 800 unidades para o poder público. A distribuição dos itens foi para mulheres vulnerabilizadas. “Já fomos em assentamentos, escolas públicas e também no HMI”, explica Cristina Afonso, titular da pasta. A secretária diz que com base na alta demanda, o Movimento Um Novo Ciclo foi lançado nesta segunda. “São muitas mulheres que precisam desta ajuda imediata”, destaca.

Goiânia

Na capital, já existe um projeto de lei de autoria de Cristina, quando ainda era vereadora, aprovado pela Câmara Municipal que inclui o absorvente higiênico feminino como item obrigatório entre os produtos que compõem a cesta básica, mas foi vetado pelo ex-prefeito da capital, Iris Rezende. Além disso, a vereadora Aava Santiago (PSDB) apresentou um projeto de lei, que tramita na Câmara, que institui o Programa Municipal de Promoção da Dignidade Menstrual.

Estado

Em Goiás, o governador Ronaldo Caiado (DEM) anunciou na última sexta-feira (8) que o Estado irá distribuir os itens para dar atenção ao problema. Eles devem chegar a famílias vulneráveis de Goiás. Entretanto, a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Seds) informou que o projeto ainda não foi finalizado e, por isso, ainda não é possível fornecer detalhes como a data de início do programa e o valor que será investido pelo governo estadual na iniciativa de cunho social.

Pobreza menstrual
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