ABEL BRAGA – Treinador fala sobre arrependimento no Flamengo, dá conselhos a Neymar e lembra sua maior dor: a perda do filho

Faz mais de meio século que Abel Braga tem o futebol como profissão. Foi no futebol que festejou algumas de suas maiores alegrias – e sofreu algumas de suas maiores tristezas. E no futebol encontrou amparo quando mais precisou: quando foi devastado pelo luto.

Aos 66 anos, o treinador está sem clube desde o final de maio, quando deixou o Flamengo, incomodado pela certeza de que a diretoria procurava outro técnico. “Eu hoje lamento não ter aceitado o convite da direção anterior”, diz ele durante uma entrevista de duas horas e meia no Rio de Janeiro – a terceira da série Abre Aspas.

IDEIAS E FUTURO

Não gosto de paizão não, cara. Porque mando eles tomarem naquele lugar, xingo. Mas eles sabem que aquilo é de verdade, é meu jeito.

Abel, você está com 66 anos. São mais de 50 anos no futebol. Você ainda tem vontade de ser treinador de futebol?

Claro. Essa paixão é maior do que quando eu jogava. Quando você joga, a preocupação é menor em relação a isso aqui (aponta para a cabeça). Você treinava, jogava, perdia ou ganhava, e ia embora para casa. Quem pensa no que vai acontecer, quem programa o próximo jogo é o treinador. Comandar é uma coisa que apaixona. Tenho um negócio comigo que, quando eu perder, aí vai ser o momento (de parar). Apesar de o momento não estar longe, óbvio. Eu não peço para auxiliar apitar treinamento. Eu que dou o treinamento. O dia que eu sair dali e só mandar fazer, aí é meu fim. Sinto uma relação não só profissional, mas de parceria quando monto alguma coisa, penso em determinada estratégia e vejo ocorrendo da maneira como pensei. É fantástico. É como se tivesse programado um videogame. Claro, às vezes a estratégia dá errado. O futebol me mostrou, nesse tempo todo, que o mais importante não é a parte tática. O mais importante é a estratégia. A estratégia causa surpresa. A forma de jogar, nem tanto.

Mas uma estratégia se apoia em uma escolha tática. Você monta um plano para executar uma estratégia. O que é a tática no futebol, para que possamos dissociar da estratégia?

A tática é poder ocupar da melhor maneira possível o maior espaço possível do campo. Aí entra a estratégia. O Santos vem fazendo jogos muito legais, é gostoso de ver jogar, não abdica nunca de ataque. Isso é estratégia. Mas, em qualquer cruzamento, tem sempre três, quatro jogadores na área. Os homens de trás chegam, os volantes jogam praticamente em cima da área adversária, pra disputar a segunda bola, o rebote, principalmente com Jorge, Ferraz e Pituca. Ele não tá preocupado se vai perder a bola e deixar no mano. Ele tá preocupado na superioridade, em ter o maior número possível de jogadores para fazer o gol. Aí que é o grande segredo. Hoje, o jogador fundamental é aquele que tivemos um tempo atrás e agora começa a voltar: o do um para um, que elimina, que sabe tirar da frente. É o jogador que vai desequilibrar um sistema tático. Em um drible, ele ultrapassa uma linha. Quando você bate uma linha, é ali que vai se sobrepor ao adversário.

Quem, por exemplo? Que jogadores fazem isso?

O do Grêmio (Everton) é assim. Tava aí o Rodrygo, que é assim. O Bruno Henrique é assim, o Vitinho, o Everton Ribeiro. Em algumas situações, o Erik. Tem o Marrony. Tem o Soteldo no Santos. Tem o Dudu no Palmeiras. Tem o canhotinho (Pedrinho) e o baixinho (Clayson) do Corinthians. No São Paulo, tem o Antony, que pra mim é uma das maiores revelações do nosso futebol. E agora começa a surgir aquele jogador que faz essa diferença por dentro. Quando elimina por dentro do campo, a probabilidade de chegar ao gol adversário é muito maior.

Você ainda vai treinar um dos grandes clubes paulistas?

Será que vai chegar esse momento? Tomara que chegue. Seria legal fechar o ciclo num clube de São Paulo. Os convites em momento nenhum vieram na hora certa. Era eu com contrato em vigor, trabalhando. Teve duas vezes com o Toninho Cecílio (2007-2010) no Palmeiras. Eu tinha encerrado o primeiro ano de contrato no Al-Jazira, mas tinha renovado por mais dois anos. Sempre foi assim. Não aconteceu. Mas eu gostaria que acontecesse. Vamos ver, vamos esperar, que nesse ciclo final aconteça.

Você acha que treinadores estrangeiros, casos agora do Sampaoli e do Jorge Jesus, têm trazido algo novo para o futebol brasileiro? Eles têm trazido novidades?

Não posso falar porque não conheço o trabalho. São treinadores de ponta. O Santos joga um futebol agressivo, de velocidade, de ataque. Não sou contra a vinda de treinadores de fora. Isso cria um intercâmbio bom, um mercado legal, maior conhecimento. Estive dez anos trabalhando fora do país. Nesses lugares, sempre fui muito bem tratado. Acho que tem um ponto importante, e que vai ser fácil para o Jorge Jesus e para o Sampaoli: é chegar e saber que você está chegando; que não é o país que está indo até você. A adaptação não é só no aspecto futebolístico. É de socializar, procurar aceitar, entender a cultura do país.

Os jogadores costumam falar muito bem de você. Você tem fama de saber controlar elencos. O que representa isso para você?

Disso eu me orgulho. Falo do fundo do meu coração: é o meu orgulho. Meus pais não tinham tanta cultura, não tínhamos uma vida fácil, e escutei muitas vezes o “não”. Você precisa saber o momento de dizer não para o jogador e mostrar o porquê do não. Por ter sido jogador, procuro não fazer com meus jogadores aquilo que eu não gostaria que fizessem comigo ou que já fizeram comigo. Quando você age com verdade, com transparência, é muito bom. Até agora, é uma relação forte com todos que passaram, sem nenhum tipo de problema. O meu atleta sabe que ali (no campo) eu cobro. Mas que acabou o jogo, fui para a conferência de imprensa, vou defender sempre meus jogadores. Quando perdemos pro Inter, falei que não perdemos para um time qualquer. Se jogo abobrinha, minto pro torcedor. Mas tenho o direito de achar que o Beira-Rio é o estádio mais bonito do país. O Flamengo joga no templo mundial, mas você não vai dizer que é mais bonito que o Beira-Rio, porque não é. Eu vou dizer isso porque é o que eu acho. Nunca vou falar algo para agradar. É a minha cabeça que rola. A minha cabeça rolou quando eu estava ganhando. Como vou perder com a cabeça dos outros? Às vezes colocam que sou paizão. Não gosto de paizão não, cara. Porque mando eles tomarem naquele lugar, xingo. Mas eles sabem que aquilo é de verdade, é meu jeito. Mas ali. Fora dali, eles são intocáveis pra mim. Como eu nunca tive empresários, meus maiores empresários foram eles, os jogadores.

Técnico de futebol ganha salário muito alto no Brasil hoje? E isso gera instabilidade?

Não acho que ganha muito, não. Uns estão em um patamar mais alto. Um ou outro está realmente ganhando muito bem. Pra trazer o Jesus da Europa, tem que pagar acima do normal aqui. Não vejo que a instabilidade seja por salário, não.

É por resultado?

É por resultado. E porque não escuta o que você (dirigente) quer, por que você está me contratando. Gostaria de escutar que o objetivo está dentro do que posso dar como resposta. Isso não existe. Isso nunca estoura em você (dirigente). Estoura sempre nessa parte aqui. É sempre uma parte que está errada. Sempre. Isso não é legal. E o tempo que te dão, de ser de ontem pra hoje, é absurdo. Uma das virtudes que tenho é ser gestor desses caras, mostrar o caminho mais fácil de ganhar. Mas veja bem: você está falando com 30. Não pode criar dois, três, quatro caminhos. Tem que ser um caminho. Mas esse caminho é pro cara casado, pro cara solteiro, pro cara que ganha mal, pro cara que ganha bem, pro cara que é ídolo. E isso é complicado. No Fluminense, em 2011, o ambiente era complicado. Quando ganhava, ganhavam os garotos de Xerém; quando perdia, perdia o Fred, o Deco, o Gum. Criar identidades independentemente de parâmetros é complicado. Acha que vou descobrir isso em uma semana?

O que você espera para os próximos anos, Abel? O que você ainda gostaria de viver no futebol?

Tem que ser ambicioso. Se não ganhar, o outro vai ganhar. Quero poder passar o que aprendi, o que aprendo todo dia, e de alguma forma ser útil. É ver alguma coisa que te satisfaça, sair orgulhoso de como o time jogou, de ver a jogada que ensaiamos virar gol. Não tem coisa melhor do que, como aconteceu recentemente, quando estava sendo criticado pela torcida contra o Athletico-PR, e o Rodrigo Caio fez o gol e aqueles jogadores vieram todos saltar em cima de mim. Isso não tem preço. Foi uma maneira de dizerem: “Estamos contigo.” Espero que, no meu próximo clube, eu possa ter essa resposta também: “Nós estamos contigo.” Porque eu vou estar com eles.

Você pensa em fazer uma função como a do Autuori no Santos, como diretor?

Eu vou ter que fazer alguma coisa com futebol. Não penso em mais nem três anos de carreira. Mas pode ser, não descarto. Já me foi perguntado, sutilmente, se eu gostaria de ir para a televisão. Não sei. Eu gostaria de fazer alguma coisa ligada ao futebol, ou trabalhar com meu filho. Já falei com minha mulher de quem sabe a gente montar um negócio para se ocupar. Moro na capital do Rio de Janeiro, o Leblon. Tem a capital do Brasil, que é o Rio de Janeiro, e a capital do Rio de Janeiro, que é o Leblon. Eu tinha vontade de abrir alguma coisa ali. Mas o futebol é uma magia. Ele encanta. Vamos ver. Muita gente não esperava, e nem eu, que eu poderia deixar o Flamengo. Mas fiz o que minha consciência mandou.

FLAMENGO

O que faria você aceitar um convite de um clube hoje? Salário, tempo de contrato, lidar com base? E quem contratar o Abel está contratando o quê?

Um treinador que só tem 27 títulos. Não é mau, né? O sucesso que consegui só ocorreu porque tive fracassos. Existem quatro jogos que foram os piores da minha carreira. Foram as duas finais de Copa do Brasil, em anos consecutivos, por Flamengo (contra o Santo André em 2004) e Fluminense (contra o Paulista em 2005). Aí teve, com o Inter, aquela semifinal contra o Olimpia (na Libertadores de 1989). O outro foi o Brasileiro de 88, que terminou em 89, contra o Bahia. As decepções foram essas. E fazem aprender. Sou um cara que não cria problemas com ninguém. Sou transparente. Costumo ser muito bom gestor. A relação é muito forte em todos os grupos onde passo. E gosto de me sentir à vontade. Eu não coloco multa no meu contrato. Da mesma maneira que (o clube) vai ter a liberdade de dizer “olha, quero trocar”, eu tenho para fazer o que fiz agora no Flamengo. Dizer: “Olha, não gostei da maneira como vocês agiram, então quero comunicá-los que amanhã estou indo pegar minhas coisas e me despedir do grupo.” É simples. Mas é simples quando se torna dessa maneira, não da maneira que foi, porque aí se torna traumático. O mais legal é quando aquele que te contratou, que veio conversar, te passe alguma coisa em que você crê. Mas depois você vê que não foi nada daquilo, foi completamente diferente.

Foi o que aconteceu no Flamengo?

Eu hoje lamento não ter aceitado o convite da direção anterior. Ela tinha tido dois anos (dois mandatos) de um trabalho para levantar o clube, e fez com brilhantismo. Agora era a hora de colher. Recebi o convite (em 2018) e não aceitei. As pessoas do atual grupo, Bap (Luiz Eduardo Baptista, vice-presidente de relações externas do Flamengo), Landim (Rodolfo Landim, presidente do Flamengo), são pessoas extremamente bem-sucedidas na vida empresarial, mas não têm a experiência que tinha a turma do Bandeira (Eduardo Bandeira de Mello, ex-presidente do Flamengo). Fiquei impressionado com a maneira muito clara com que o Lomba (Ricardo Lomba, ex-vice-presidente de futebol e candidato derrotado à presidência do Flamengo) me colocou as coisas. Claro, como tudo na vida, talvez eles (os atuais dirigentes) estejam arrependidos de terem me contratado, e estou arrependido de não ter dito sim para a direção anterior.

O Landim falou que achava normal, com você no Flamengo, sondar o mercado. Ele disse que sabia de um contato com o Jorge Jesus, mas como maneira de ter um nome alternativo. Você considera isso uma traição?

É que não foi assim como ele tá falando. Gosto muito dele, é um cara de sucesso na vida profissional. Mas não foi assim. A falta de sorte é que foi em Portugal, onde tive negócios, tive casa, morei seis anos e meio, estive em cinco clubes. Desde o jogo com o Atlético-MG já havia a presença do Jesus no estádio. Não foi bem assim. Mas o que me chateou não foi esse aspecto. Da maneira como me chamou, me convidou, me contratou, tem o mesmo direito de dizer “olha, não estou gostando”. O aproveitamento estava ótimo, 70%. Há quatro anos não classificava na Libertadores; há 11 não era o primeiro do grupo na Libertadores. Já tinha ganho o primeiro jogo da Copa do Brasil. Tinha ganho o Carioca, a Taça Rio. Independentemente disso, tinha o direito de dizer “Abel, não está dando, não estou gostando”. Acabou, cara. Não saí atirando pedra em ninguém. Não estou atirando aqui. São pessoas que entraram agora no futebol e vão chegar a um patamar, porque são grandes empresários, pessoas de índole, pessoas do bem. Mas hoje, pela maneira como foi, eu fico: “Caramba, por que não aceitei antes (o convite) de uma direção que deu esse diferencial de clube que é o Flamengo?” Depois das duas gestões do Bandeira, o Flamengo é outro.

Você tem acompanhado o trabalho do Jorge Jesus? E hoje, daria preferência a um clube brasileiro ou estrangeiro?

Fiquei seis anos em Portugal, quatro anos nos Emirados Árabes. Eu não vejo salário. Vejo a cultura, aquilo que posso proporcionar à minha família. Eu amo a Europa. Pra mim, não tem nada parecido. Um ex-jogador que trabalhou comigo em Portugal, um marroquino, me ligou, ligou pro meu filho (Fábio Braga, ex-jogador e atual empresário), e veio falar sobre a seleção do Marrocos. Não conversamos nada sobre isso. Não sei o que pensam. Recebi um convite para dirigir duas equipes. Uma é o Al-Ahly (do Egito), que enfrentei no Mundial de 2006 (com o Inter), mas não quis. O Hassan (Hassan Fadil), esse ex-jogador, ligou. Vamos aguardar, vamos ver. Tenho o hábito de não pegar as coisas no meio. Mas saí cedo (do Flamengo) e não posso dizer que não vou pegar alguma coisa se aparecer.

Você e o Jorge Jesus se falaram? Ele te ligou?

Não, não.

Você esperava que ele ligasse?

Não sei. A última vez que falei com o Jesus foi quando ele respondeu uma pergunta em Portugal para falar sobre o Wendel (ex-volante do Fluminense). Eu me dou muito bem com ele. Perguntaram por que o Wendel não estava ganhando mais minutos. Ele foi infeliz na resposta, disse “isso aqui não é Fluminense”. Eu imediatamente respondi. Ele me ligou para se desculpar e tentei passar para ele a grandeza que é o Fluminense. Ele falou que foi mal entendido. Conheço o Jesus desde 89, quando eu era treinador do Famalicão. É uma relação legal. Não somos amigos, óbvio, mas é um ótimo treinador. Não me ligou. Se me ligasse, eu seria gentil da mesma forma.

Quando você saiu do Flamengo, na sua visão, em que estágio o Flamengo estava? E como foi ver chegarem Rafinha, Filipe Luís, Gerson, Pablo Marí?

Isso é normal. No Flamengo, por ter chegado ao patamar em que chegou, é absolutamente normal. O Rafinha está mostrando o momento dele. O Filipe vai sofrer por mais três jogos, praticamente não teve férias. O Flamengo, comigo, fez alguns jogos muitíssimo bons, outros nem tão bons, mas estávamos com uma preocupação muito grande de poupar a equipe, e foi o que fizemos, tanto que jogamos a Taça Rio com equipe suplente. E vencemos. Mas o Flamengo vinha numa situação boa. Pode falar que aquele momento não era bom? Podia estar oscilando, tá bem, mas continua assim. Dentro do contexto, estava bem, até muito bem. E tinha contratado grandes jogadores, o Gabriel, o Bruno Henrique, o Arrascaeta, o Vitinho, um jogador que adoro. Agora vieram mais jogadores. Compuseram bem a parte ofensiva e agora pensaram em levar mais qualidade à parte defensiva. Eu gosto de todo mundo ali. É um time forte. Vai brigar por tudo. Vejo muito forte o Palmeiras, feliz da vida, porque hoje posso falar abertamente. Quando tive a primeira conversa com o Bap, falei que conseguiria mudar a cara do Flamengo com dois jogadores: Felipe Melo e Dedé. Depois, o Dedé ficou sem possibilidade, por causa da vinda do Arrascaeta, e o Felipe não tinha como sair do Palmeiras. Eles me atenderam com o Bruno Henrique, por quem tenho admiração muito grande.

Por que você gosta tanto desses dois (Dedé e Felipe Melo)?

O Dedé chamam de mito, mas ele é assim, cara. Eu o conheci em Volta Redonda. Ele apareceu no restaurante do hotel para jantar e conversamos um longo tempo. Ele vinha daquela contusão. Estava no Vasco. Foi a primeira contusão. E fiquei simplesmente encantado. Já estava encantado pelo que ele fazia em campo, tão jovem, saído do Volta Redonda: a personalidade, a velocidade, a impulsão. Depois de conversar com o cara, tive mais subsídios para admirar também o ser humano. E o Felipe é porque eu achava que o Flamengo estava precisando de um cara daquela capacidade, daquela liderança, daquela entrega. Eu achava que o Flamengo precisava daquilo. Ele é ídolo da torcida. Mas a maneira como ele se entrega no jogo, se bate por qualquer bola… Existem muitas pessoas contrárias ao futebol dele, mas agora, quando o Palmeiras está mais precisando, vem sendo o grande jogador do Palmeiras.

O Vasco te procurou recentemente?

Não. Quando eu não tinha acertado ainda o contrato (com o Flamengo), ele (Alexandre Campello, presidente do Vasco) me chamou quando foi o Alberto (Valentim). Mas eu já tinha dado a palavra ao Flamengo.

Abel, uma questão não ficou clara: você acha que Jorge Jesus, ao negociar com o Flamengo, falhou com você? Ele cometeu algum erro com você?

Não, não. O Jesus não tem nada a ver com isso. A direção foi procurá-lo. Saíram daqui, foram a Portugal conversar com ele, mas eu me adiantei ao processo. Poderia ter me ligado? Acho que poderia, não sei. Mas não falhou, não. Não tem culpa de nada.

Você, no lugar do Jorge Jesus, teria agido diferente?

Aqui no Brasil, fui convidado duas vezes. Liguei pro treinador e disse que não ia pegar, mas que era bom ele ficar atento. Para o Dorival mesmo, no Flamengo, liguei dizendo que fui procurado pela outra direção. A direção que estava com o Dorival no Flamengo me ligou antes de contratar o Dorival. Falei pra ele que o outro grupo tinha me telefonado e pedi que ele me falasse do Flamengo. Tudo que ele falou se encaixou perfeitamente: um grupo muito profissional, muito fechado, muito disponível, que paga um preço muito alto, uma cobrança muito alta desse tempo sem conquistar coisas importantes. A cada ano, esse tipo de pressão aumenta. Por isso que falei: “Poxa, será que não vamos dar prioridade a uma competição?” Mas não. O termo era esse: ganhar tudo, ganhar tudo, ganhar tudo. Mas ganhar tudo é muito complicado.

NEYMAR

Você saberia lidar com o Neymar?

Sabe, eu tenho um carinho muito grande por ele, por causa de um jogo em Volta Redonda. Ele enlouqueceu meu time naquele jogo. Vencemos e estávamos saindo, praticamente na mesma direção, e ele me falou algumas coisas de forma tão gentil, cara. Tão menino naquele momento, depois de uma derrota, e tão maduro. Menino e maduro. Ele me causou uma impressão muito boa.

E não parece o contrário hoje? Mais velho e menos maduro?

É… Acho que as situações, quando você atinge determinada dimensão, jogar sabendo que pode ser considerado o melhor jogador do ano, isso cria um peso muito grande. Nesse momento, houve um certo desequilíbrio dele. Às vezes, dá a impressão de que o Neymar não conseguiu entender aonde chegou, o que atingiu, o que representa. Com quantos anos ele está? 27? Não é possível que agora tenha virado um adulto imaturo. Não é por aí. É que a coisa se desenvolveu de uma maneira tão gigantesca que ele me dá a impressão de não saber aonde chegou. Acho que não tem ideia. É inconcebível, pelo pouco que eu conheço, que aconteceu com o Neymar de agredir um torcedor. Nunca vi o Neymar agredir ninguém. Já tomou joelhada, fraturou, poderia ter parado de jogar. Toma porrada, porrada, porrada, e nunca foi muito de revidar. Pra mim, fica nítido isso: são milhões e milhões e milhões de pessoas que viram aquela atitude. E aquilo é muito ruim para a imagem dele. De tantos milhões que viram, de tantos meios de comunicação, quanta porrada ele tomou? Isso cria desequilíbrio, mexe com o emocional.

Que conselhos você daria a ele? Porque a saída do Santos foi conturbada, a saída do Barcelona foi conturbada, agora há um imbróglio com o PSG…

A primeira coisa que teria dito era: “Não saia do Barcelona. Você vai estar muito mais perto de ser o melhor do mundo aqui do que no Paris Saint-Germain.” Porque eu joguei no Paris Saint-Germain. Eu gosto do Paris Saint-Germain. Mas o que o Paris Saint-Germain ganhou? Ir para um clube para ser o protagonista não é o bastante. O cara é o melhor do time, mas o time não ganha nada. Ganha a Copa da França e o Campeonato Francês. O que ganhou internacionalmente? Nada. Eu, se fosse próximo, falaria: “Não sai do Barcelona. Aqui vai chegar o seu momento. Você é muito mais jovem que o Messi. Você vai ter esse reinado durante muito tempo.”

Que caminho você indicaria para ele?

Com certeza, lembraria a ele como foi o início. Tem, na vida de todos nós, o início, o meio e o fim. Parece que ele teve um início que nos causou uma alegria, uma satisfação enorme, imensa, porque vínhamos há algum tempo sem um grande craque, mas parece que ele atingiu isso tão rapidamente, que no momento mais importante, que é o meio, ele passou batido. Saiu do início e parece que está se aproximando do fim, com atitudes que não condizem com ele, que não são corretas para quem é exemplo. Foi nesse vazio que acho que faltaram algumas palavras: de ele saber que é espelho. Eu continuo tendo uma admiração incrível por ele. Mas acho que faltou alguém, alguma coisa, entre o início e hoje. Ficou um vazio na área de amadurecimento. Ele é jovem, vai amadurecer, tudo isso vai fazê-lo crescer. Mas grande parte do amadurecimento dele parece que passou batido. Ele não foi subindo de degrau em degrau. Do segundo degrau, olhou o último. Para chegar lá, tem que ir degrau a degrau.

LUTO

Gostaria de lhe perguntar sobre a perda do seu filho (João Pedro, de 19 anos), há cerca de dois anos.

Fez dois anos no dia 29 (de julho).

Fala-se que é a pior dor que um ser humano pode sentir.

Se eu tivesse outra carreira, eu não sei se ia segurar a onda. Eu lembro muito bem. Teria uma festa de 15 anos no salão nobre do Fluminense, e o presidente Pedro Abad cancelou para que o corpo fosse velado lá. Sou grato até hoje por isso. No dia seguinte, dia do enterro, ele me falou: “Não se preocupa com treino, jogo, nada. Vai lá quando puder, quando quiser.” Eu falei: “Não, presidente, vou lá amanhã.” Ali eu não iria fazer nada pelo futebol: o futebol iria fazer por mim. Quando aconteceu, fazia 49 anos que eu estava no futebol. Houve uma corrente no meio do campo na hora do treinamento. Os caras foram impecáveis. Falou o Gum, falou o Henrique. E aquilo… Eu falei: “O Pedro está aqui.” A saudade não sai nunca mais. Mas aqueles caras amenizaram alguma coisa. No dia seguinte, voltei a dar treino, mas não viajei com a equipe pro Recife. Viajei no dia do jogo. Sempre fui ao Recife jogar contra o Sport, trabalhei duas vezes no Santa Cruz, fomos bicampeões pernambucanos, e a torcida do Sport não gosta de mim de jeito nenhum. E, cara, aqueles caras me prestaram uma homenagem… O Luxemburgo era o treinador. Levantou do banco, veio, me tirou do meu banco, nos postamos juntos no hino nacional, e o que a torcida fez foi fantástico. A coisa mais incrível que vi na vida foi aquele minuto de silêncio da torcida do Fluminense. E, para coroar, ainda houve aquele abraço coletivo dos jogadores do Santos. A dor não diminuiu e não vai diminuir nunca.

O que mudou na sua vida depois desse episódio? Que impacto essa perda teve na sua vida?

A saudade não vai passar nunca. Lágrimas aparecem em alguns momentos, inesperadas, de repente, quando a gente olha alguma das inúmeras fotos em casa. Mas o futebol me deu um apoio infinito naquele momento. E continua dando. Nunca pensei que viveria o que vivi. Nunca mais vi minha mulher sorrir da maneira como ela sorria. Muita gente na família ficou diferente. Mas a gente vai levando, vai lembrando, vai tentando acreditar que ele está em um lugar melhor. Ninguém me afirmou isso com certeza. Essa resposta eu ainda não tive. E eu pergunto todos os dias.

HISTÓRIAS

Você pertenceu a uma zaga chamada Barreira do Inferno. Você gostava desse apelido? E saiu muito na porrada no vestiário?

Não. Em vestiário, nunca aconteceu isso. Nunca briguei. Briguei uma vez em Portugal, descendo do ônibus, porque o porteiro colocou a mão no meu peito. A Barreira do Inferno… o Vasco formou um time legal. Ficou um meio-campo incrível, com Zé Mário, Zanata e Dirceu. Um ataque com dois caras muito rápidos pelo lado e o Roberto (Dinamite), que fazia gol de tudo que era jeito. Como me deu bicho esse cara… Mas ninguém chegava. Não batiam em ninguém. Aí a gente falou: temos que criar alguma coisa aqui de terror. E criamos aquela linha imaginária. A gente falava: “A linha tá ali. Da linha pra lá, é barreira do inferno, meu irmão.” Foi uma equipe que marcou. Os torcedores vascaínos se lembram com orgulho.

E o gol do Rondinelli?

Cara, eu pago isso até hoje, né? E o Rondi é meu amigo. Rodamos um documentário sobre ele, e fiz questão que fosse lá em casa. Foi legal rever aqueles colegas. O Rondi é diferente. Aquele gol… Vai explicar aquele gol. Porra, é o Zico que bate o escanteio. O repórter jogou a bola, e ele já jogou pra área. Não tava nem posicionado. A bola veio, o Rondinelli começou, o Roberto acompanhou, e ele entrou que nem um louco. A bola caiu atrás de mim. Saltei, não alcancei. Antes de o Orlando falecer, falamos muitas vezes: “Seria muito mais fácil você dar dois ou três passos para a frente do que eu dois ou três para trás.” Mas ficou esse negócio de gol do Rondinelli em cima do Abel. Quando eu encontrava o Leão, eu falava: “Porra, Leão, tu não sai nunca do gol também, pô.”

Você teve Romário e Edmundo brigados no mesmo time (no Vasco). Como foi lidar com eles?

São dois tops, dois caras que me trouxeram uma alegria incrível, que foi ganhar a Taça Guanabara invicto e derrotar o Flamengo na final por 5 a 1. Quando cheguei, chamei um deles na minha sala, não lembro qual. Falei: “Ó, cara, seguinte: tô chegando, passei a maior parte da minha carreira como atleta aqui dentro e só quero uma coisa. Você não enche meu saco e eu não encho teu saco.” Aí esse primeiro saiu da sala, e veio o falecido Alcir Portela (ex-jogador; na época, auxiliar técnico) e falou assim: “Você falou com esse e não vai chamar o outro? Você enlouqueceu. Chama agora, porque vai dar merda, vai dar confusão.” Aí chamei o outro, usei as mesmas palavras. Depois o negócio agravou um pouco, com príncipe, bobo da corte e não sei mais o quê. Mas eu adorei aquilo. Minha relação com ambos foi muito boa, problema zero. A coisa foi tão boa que um executivo do (Olympique de) Marseille estava vendo os treinos para levar o Edmundo ou o Gilberto e acabou me convidando, cara! O Romário e o Edmundo, quando souberam que eu ia sair, foram para cima do Eurico (Miranda), pressionaram. Imagine você: um vai bater o pênalti, o outro tira a bola, mas, em campo, os caras resolvem. E vou contar uma coisa. Com a crise no auge, o Romário veio me perguntar do Edmundo. Falei que tava fora, com um probleminha na perna, e o Romário disse: “Porra, que merda.” Ele sabia que o cara fazia falta. No fundo, no fundo, no que dizia respeito a futebol, um tinha respeito pelo outro.

Reportagem de Alexandre Alliatti, Alexandre Lozetti, Janir Júnior, Martín Fernandez e Raphael ZarkoEdição: Alexandre Alliatti e Gustavo MachadoImagens: Edu Bernardes e Gustavo MachadoProdução: Vanessa SantilliDiagramação e arte: Cláudio AssisAgradecimento: Barra GrillDesenvolvimento: Diego Marcelo

Fonte:
https://interativos.globoesporte.globo.com/sp/futebol/especial/abre-aspas-3-abel-braga

Compartilhar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *