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Ex-funcionária da casa onde João de Deus atende, mulher denuncia ter sido abusada pelo médium

Postado por TVKajuru.com | 08/12/2018 às 10:59h

Moradora de Goiás procurou a TV Anhanguera após outras pessoas denunciarem ter passado pela mesma situação, em Abadiânia. João de Deus nega as acusações.

 

Após mulheres acusarem o médium João de Deus de abuso sexual, uma ex-funcionária da Casa Dom Inácio de Loyola, onde ele atende, procurou a TV Anhanguera para denunciar que também foi abusada durante atendimentos espirituais em Abadiânia, cidade goiana do Entorno do Distrito Federal. Em nota enviada pela assessoria, João de Deus, negou as acusações (leia a nota na íntegra ao fim do texto).

A ex-funcionária tem 35 anos e teme se identificar. Ela conta que visitou a Casa pela primeira vez em 2005, em busca da cura para a filha, e, depois, quando recebeu o diagnóstico de um tumor. A mulher frequentou o local várias vezes e conta que os abusos ocorreram quando ela estava sozinha.

 

“Na primeira ocasião, ele pegou um colchão que tinha no corredorzinho e colocou no chão. Ele mandou eu tirar a roupa, eu tirei. Não entendi muito bem. Da outra vez que eu fui, ele sentou na poltrona dele, tirou as calças e mandou eu mexer no órgão dele”, relatou a mulher.

 

De acordo com a ex-funcionária, ela teve medo de denunciar o médium à Polícia Civil. “Era medo, medo de me expor, ele tem costas quentes né, poderoso em Abadiânia e em Goiás”, afirmou.

João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, é famoso pelos atendimentos e cirurgias espirituais que faz desde 1976, em Abadiânia, cidade com menos de 19 mil habitantes. A Casa Dom Inácio de Loyola recebe até 10 mil pessoas por mês – a maioria, estrangeiros. Os relatos sobre as curas obtidas pelo médium, incorporando entidades, se espalharam pelo mundo.

 
 
João de Deus atende na Casa Dom Inácio, em Abadiânia ? Foto: Reprodução/ TV Anhanguera João de Deus atende na Casa Dom Inácio, em Abadiânia ? Foto: Reprodução/ TV AnhangueraJoão de Deus atende na Casa Dom Inácio, em Abadiânia — Foto: Reprodução/ TV Anhanguera

 

Denúncias

 

Os abusos vieram à tona na sexta-feira (7), durante o programa Conversa com Bial. O apresentador Pedro Bial e a repórter Camila Appel entrevistaram 10 mulheres que relatam ter sofrido abusos por parte do médium. O jornal "O Globo" investigou o caso por três meses e ouviu também outras três mulheres que também denunciaram João de Deus.

Apenas uma das mulheres ouvidas por Bial, Zahira Leeneke Maus, uma coreógrafa holandesa, aceitou se identificar. As outras, todas brasileiras, disseram que preferem não mostrar o rosto, por sentirem medo e vergonha.

Zahira fez recentemente uma denúncia pública no Facebook - quatro anos após o a violência sexual relatada por ela. "Eu sei que tenho sido criticada: 'Por que você está vindo com a sua história, se ele está curando milhares de pessoas?' E essa é uma das razões do porquê eu não disse nada. Porque se fosse só eu, eu que engula, porque ele está curando milhares de pessoas, certo? Mas agora eu sei, ele está abusando de centenas de mulheres e meninas", afirmou Zahira.

A coreógrafa conta que, depois da publicação na internet, ela começou a ter contato com outras mulheres que diziam ter passado pela mesma situação.

 

Padrão de comportamento

Conforme os relatos das mulheres, o modo como o médium agiu foi similar em todos os casos relatados. As entrevistas contam que, durante os atendimentos espirituais coletivos, o médium teria dito que, segundo a entidade, as mulheres deveriam procurá-lo posteriormente em sua sala, porque tinham sido escolhidas para receber a cura.

As mulheres dizem que, quando estavam sozinhas com João de Deus, eram violentadas sexualmente.

 

"Pegava na minha mão para eu pegar no pênis dele. (...) Ele falava: 'Põe a mão, isso é limpeza. Você precisa dessa limpeza, é o único jeito de fazer isso'", disse uma mulher que procurou João de Deus para cura espiritual.

 

De acordo com Zahira, ao ouvir os relatos de outras mulheres, ela percebeu que “existe um sistema. A primeira coisa é 'vire de costas, eu vou te curar'. Existe um padrão (...) Você é manipulada a acreditar na cura”.

Segundo uma das mulheres, o médium demonstrou saber que aquilo que estava fazendo com ela poderia ser considerado assédio sexual.

 

"Calma, eu não estou com tesão, mas preciso fazer isso para te curar", uma delas relatou ter ouvido de João de Deus durante o abuso.

Ameaças de morte

 

Amy Biank é coach espiritual e autora americana que levava pessoas em peregrinação para a Casa Dom Inácio de Loyola desde 2002 e também participou do programa de Bial na sexta. Ela disse que uma vez, quando acompanhava um grupo a Abadiânia, ouviu um grito de socorro, entrou na casa e viu João de Deus forçando uma jovem a fazer sexo oral nele. Em seguida, segundo Amy, ele pediu que a ela que fechasse os olhos e sentasse.

"Eu vi que ele estava com a calça aberta, ela estava ajoelhada. Ela não estava querendo fazer sexo oral nele, foi por isso que ela gritou. Mas eu sentei no sofá e fechei meus olhos, porque eu estava tão doutrinada a achar que aquilo tudo era divino e especial."

 

Ammy disse que, depois, cruzou com João de Deus numa pousada da região.

 

"Mais tarde ele veio até a pousada em que estávamos, porque ele sabia que eu tinha visto, e aí ele chegou e disse: 'Quando eu sou o João, eu sou somente um homem. E homens têm necessidade. Um homem é somente um homem'", contou Ammy.

 

De acordo com a coach espiritual, as pessoas que trabalham com o médium sabem do que acontece e que quem tenta denunciar acaba saindo da Casa por medo, já que ele é um “homem muito poderoso”. Ela afirmou que também sofreu ameaças de morte.

 

Denúncias

 

A promotora de Justiça do Estado de São Paulo Silvia Chakian pede que todas as pessoas que se sentirem vítimas não tenham medo e denunciem o médium. "Daqui para frente, todos os casos são processados mediante ação penal pública e o titular dessa ação penal é o Ministério Público. Aí a importância de todos esses casos chegarem ao conhecimento do MP sempre", disse ela em entrevista ao Jornal Hoje.

Silvia reforça que, independente de quando o abuso aconteceu, a vítima pode denunciá-lo. “Em casos como esse, fica muito claro como o prazo era insuficiente para mulheres que sofrem e demoram, muito mais de seis meses, para se compreenderem como vítima de violência. É próprio do pós-trauma essa demora em denunciar”, afirmou.

 

O que é considerado crime

 

Gabriela Manssur, promotora de Justiça do Estado de São Paulo, diz que, segundo a legislação penal, o ato sexual compreende qualquer ato que a pessoa faça para a satisfação de seu desejo sexual. Não precisa ser necessariamente a conjunção carnal. Pode ser, por exemplo, apalpar a pessoa.

 

"Não há necessidade de violência física, há situações em que essa violência está presumida. Mas, se a mulher não conseguir por alguma circunstância oferecer resistência e evitar que isso ocorra, pode ser considerado estupro uma violência presumida em situação de vulnerabilidade temporária naquele momento do ato sexual", diz Gabriela.

A lei aborda a questão da violação sexual mediante fraude, chamada de estelionato sexual, e situações de estupro mediante violência presumida, que são essas situações de vulnerabilidade.

"Na violação sexual mediante fraude, essa mulher acaba consentindo com a relação sexual, ela está sendo enganada, então ela acaba tendo esse consentimento viciado, ela não está manifestando a sua vontade livre e consciente. Esse poderia ser um estelionato sexual. E há a questão da vulnerabilidade, quando ela não consegue oferecer resistência, mas está sendo contra a vontade dela, ela não queria fazer aquilo, mas ela não consegue oferecer resistência, porque alguma circunstância tirou essa possibilidade de manifestar seu consentimento", explica a promotora.

 

O que diz João de Deus

 

G1 e a TV Anhangueram tentaram contato, no sábado (8), por telefone, com a assessoria de imprensa de João de Deus . No entanto, as ligações não foram atendidas.

Uma equipe de reportagem da afiliada da Rede Globo foi até Abadiânia para tentar ouvir o médium, mas não o localizou. Eles foram até a uma fazenda de João de Deus, porém a porteira estava trancada.

Ao programa Conversa com Bial, a assessoria do médium afirmou, em nota, que "há 44 anos, João de Deus atende milhares de pessoas em Abadiânia, praticando o bem por meio de tratamentos espirituais. Apesar de não ter sido informado dos detalhes da reportagem, ele rechaça veementemente qualquer prática imprópria em seus atendimentos".

 

Trajetória do médium

 

João Teixeira tem seguidores famosos e já recebeu visita de personalidades como a apresentadora americana Oprah Winfrey. Ele foi apadrinhado por Chico Xavier e, antes de fundar a Casa Dom Inácio, em 1976, peregrinava pelo país fazendo cirurgias espirituais, segundo reportagem do jornal O Globo.

No início do seu trabalho, João de Deus foi alvo de denúncias de exercício ilegal da medicina. Depois, também foi acusado de sedução de uma menina menor de idade. Foi absolvido por falta de provas.

De acordo com a revista "Época", o religioso já foi acusado também de atentado ao pudor, contrabando de minério e assassinato. Em nenhum dos casos foi julgado culpado.

Ele nasceu em Cachoeira da Fumaça (GO), filho de um alfaiate e uma dona de casa. Estudou até o segundo ano do ensino fundamental. Tem 11 filhos – cada um com uma mulher diferente. A revista "Época" diz que alguns deles são evangélicos, e não seguem a espiritualidade atribuída ao pai. João de Deus rejeita o rótulo de santo ou de ser um homem especial.


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