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Parreira, em Moscou: "Essa Copa já é um marco, é histórica"

Postado por TVKajuru.com | 06/07/2018 às 12:49h

Chefe do Grupo de Estudos Técnicos da Fifa diz que V.A.R. melhorou nível dos jogos, absolve Messi, exalta Neymar e afirma que Brasil aprendeu com erros de 2014 e está pronto para ser campeão

 

Chefe do Grupo de Estudos Técnicos da Fifa para a Copa do Mundo da Rússia, o brasileiro Carlos Alberto Parreira está acompanhando os jogos do megaevento para fazer um relatório sobre as tendências táticas e técnicas da competição. Na manhã desta sexta-feira, pouco antes de viajar para Kazan, para acompanhar in loco o Brasil x Bélgica de logo mais, pelas quartas de final, o treinador campeão mundial de 1994 conversou com o GloboEsporte.com, a rede de TV BEin Sports e o jornal "Estado de S.Paulo", no QG da Fifa, num hotel de Moscou. Durante 15 minutos de entrevista, Parreira, de 75 anos, mostrou-se entusiasmado com o nível do Mundial e confiante na seleção brasileira, que aprendeu com os erros de 2014. Ele aposta que Neymar tem tudo para ser o melhor da Copa e fez uma análise do que viu até aqui e o que espera até o fim da competição.

Como o senhor avalia a primeira fase da Copa do Mundo da Rússia?

CARLOS ALBERTO PARREIRA. A Copa tem sido muito boa. Eu assisti à primeira parte do Brasil. Gostei do nível técnico, do ambiente, dos jogos. A Copa me parece estar sendo muito bem organizada. Os estádios, os gramados, as novidades... É uma Copa diferente. Daqui, é o antes e o depois. Há a introdução do VAR, que veio para ficar. Havia muita discussão, sobre ser válido, sobre não ser. No final, será bom para o futebol. A justiça, a transparência. No final, não tem quase nenhuma ingerência e quase nenhuma participação. Se precisar, está lá para colaborar. É uma coisa muito interessante. Pela primeira vez, uma equipe entrou pelo nível técnico dos cartões, o Japão. Isso nunca tinha ocorrido. Essa Copa já marcou por isso (pelo V.A.R.). É um marco, é histórica.

O primeiro Mundial com VAR ajudou o nível técnico?

Ajuda, é novidade e vem para ficar. Polêmicas e dúvidas serão sanadas, com certeza. Serão equalizadores ao longo do tempo. Já agora, no final da Copa, tem muito menos problema. Veio para ajudar, veio definir. Vai dar transparência e acabou com aquele empurra-empurra dentro da área, aquele segura de jogadores, que era algo horroroso. Hoje, os jogadores sabem que há 34 câmeras olhando. O cara (o juiz) pode ver, marcar um pênalti. Melhorou a qualidade do futebol.

Temos um Mundial de surpresas aqui na Rússia?

Sim, de muitas surpresas. Boas surpresas e, sobretudo, de muita paixão. Notamos que, durante o jogo, há muita paixão. Gostei de uma entrevista do técnico da Bélgica. No final, ele foi perguntado sobre o jogo, e como estava perdendo o jogo, ele interrompeu e disse: "meu amigo, o que você está pensando? O futebol é muito mais que números, táticas, substituições. Tem um componente que nada se compara, que é a paixão, o coração, a vontade. Nesse momento, com dois a zero contra, eu estou sendo eliminado por 2 a 0 contra o Japão e vou pensar em tática, estilo? É coração e vontade de ganhar. Foi isso que meu time fez", respondeu o treinador. O futebol tem isso também. Não se resolve apenas por números, táticas e esquemas. É um componente que só o ser humano tem a capacidade de colocar.

A maior surpresa foi a eliminação da Alemanha?

Sem dúvida. Não é a primeira vez que isso ocorre com o atual campeão. Mas, sendo a Alemanha, que nunca tinha sido eliminada de uma fase de grupos, a coisa ganha uma outra dimensão. E fica a pergunta: e agora? No Brasil, ficava aquela história que o paradigma é a Alemanha. Ela tem que ser copiada. E, agora, vamos fazer o quê? Nós vamos para a Alemanha, ou eles vêm para cá?

Esperava-se muito de Messi e de Cristiano Ronaldo. Mas os dois acabaram eliminados cedo, nas oitavas de final. Como o senhor avalia?

Eles não serão julgados pelo que fizeram em Copas do Mundo. Eles serão julgados pelo que fizeram ao longo de 20 anos de futebol, em alto nível. Não vai ser uma Copa que vai tirar o título de Messi como um dos melhores do mundo. A Copa é diferente, a seleção é diferente. Ele joga há 20 anos no Barcelona. A seleção se junta por dois dias. Não pode confundir nível de entrosamento, comprometimento. Isso demanda tempo.

O Brasil está nas quartas-de-final e enfrenta hoje a Bélgica. Como o senhor avalia a atuação do Brasil até aqui?

Vejo (o Brasil) de um modo muito interessante: crescendo. Começou meio tímido, melhorou no último jogo contra o México. Já mostrou uma outra cara. O Brasil, das equipes que estão presentes, talvez ao lado da França, que não apresentou muita coisa na primeira fase.

 

Agora, Brasil e França são as duas equipes que tendem a crescer. Têm um espaço de crescimento. As outras já deram o que tinham de dar.

 

Isso, na hora final, é muito importante e ajuda muito o Brasil. Nós temos espaço para crescer. E estamos crescendo. As outras já deram o que tinha de dar.

Como o senhor avalia o jogo contra a Bélgica?

O que ficou muito claro é que não há jogo fácil nessa Copa. Tem jogos de características diferentes. A Bélgica é (um time) muito bom do meio de campo para frente, um dos melhores da Copa. Mas, no meu ponto de vista, deixa muito a desejar do meio para trás. Se não mudarem, podem ter muita dificuldade com a equipe brasileira. Nós temos um ataque poderoso, decisivo, que tem quatro jogadores que podem decidir uma partida. Do meio para frente, tem a qualidade do futebol brasileiro. Então, vamos ver quem incomoda mais a quem. Mas tenho certeza de que, se não mudarem aquela maneira de jogar, eles (os belgas) vão sofrer muito.

Daquela seleção brasileira de 2014, qual o legado que vem para essa Copa do Mundo?

Sempre aprendemos nas derrotas. O ser humano, não é só no futebol, em qualquer área, quando você tem um “fracasso ou derrota”, você sabe extrair o que não deu certo, e aí você volta mais forte. Não por acaso, tem ocorrido isso. Em empresas, muita gente abre um negócio, um segundo, um terceiro, um quarto. Não dá certo, ele vem coletando (informações), e quando chega em determinado momento, ele está pronto para deslanchar. O Brasil, no futebol, tem sido um belíssimo exemplo disso. Quando nós perdemos em 1966 e ganhamos em 1970, perdemos em 1990 e ganhamos em 1994, por termos aprendido as lições da Copa anterior. Muitas lições.

 

Quando perdemos, aprendemos muitas coisas. Aprendemos em 1998 para 2002. E se perdeu em 2014, com certeza tivemos erros, e aprendemos. Hoje, estamos no caminho certo para ganhar. O Brasil está bem preparado para ser campeão. Pode não acontecer. Mas o time está preparado, dentro e fora de campo. Fez um trabalho belíssimo.

 

Quando o trabalho fora de campo é bem feito, o planejamento é muito bom, as coisas acontecem certinhas, ajuda muito dentro de campo. O treinador passou uma filosofia, a ideia que foi comprada. Ele é um gesto de grupo, que sentimos que o grupo está unido, está querendo. No inglês, tem uma palavra que gosto: "hungry" (faminto). Se você olhar a delegação, dos 64 membros, só tem um campeão do mundo, que é o Taffarel. É muito pouca gente campeã do mundo. Essa gente toda, no início, teve dificuldades. Estavam assustados. Mas percebemos que estão confiantes. No futebol, temos de estar preparados para as surpresas que ocorrem a cada jogo.

Como o senhor avalia o desempenho do Neymar?

 

Crescendo na hora certa. Era esperada. Vocês da imprensa são muito afobados. Ele (Neymar) ficou três meses e meio sem jogar. Fez dois ou três amistosos, três jogos de fase de grupo. A tendência é crescer.

 

E as polêmicas sobre o comportamento do Neymar?

Neymar tem que fazer o que ele fez no último jogo. Se preocupar em apenas jogar futebol. É a grande resposta dele. Quando ele faz isso, ele fica insuperável.

 

Neymar, hoje, sem dúvida nenhuma com a saída de Messi e Cristiano, é o grande jogador da Copa. Tem tudo para terminar como o grande nome.

 

O que o senhor espera da partida França x Uruguai?

É quase uma final antecipada. O Brasil, ganhando da Bélgica, e jogando contra um dos dois, eu diria que é a grande final antecipada. Respeitando todos do outro lado da chave, quem chegar à final, vai oferecer resistência, sem dúvida. Mas a grande final seria Brasil x França ou Brasil x Uruguai. Claro, (com o Brasil) passando pela Bélgica.

Sobre a campanha da Rússia e o jogo contra a Croácia. É uma surpresa?

Surpreende. Chegou muito mais pela vontade, coração e amor, por ser o time da casa, que por qualidade técnica.

A Suécia também é uma surpresa para o senhor?

Sim. Mas não é tão surpresa assim. O time que elimina na fase de grupos (e eliminatórias) Holanda, Itália e Alemanha, já não é tanta surpresa assim.

Pode eliminar a Inglaterra também?

Pode acontecer.


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